Uma carta aberta ao meu pai
Nem tudo saiu conforme eu imaginava, mas eu consegui alguns objetivos, e ainda estou tentando em outros.
Por Anderson Márcio
A vida adulta não tem sido nada fácil; às vezes, eu queria voltar a ser criança, mesmo com as limitações financeiras.
Quando mainha separou-se do senhor, a gente foi morar em um barraco de madeira. (Eu, minha irmã , o senhor, minha madrasta e a filha dela) Enfrentamos dificuldades com ratos e animais peçonhentos. Não tínhamos o melhor, mas sempre tivemos o básico.
O senhor não tinha dinheiro para comprar brinquedos ou nos dar uma casa dos sonhos... Moramos em um barraco de compensado/madeirite, catávamos reciclagem em lixeiras, reutilizávamos alguns utensílios achados no lixo, mas éramos felizes na medida do possível.
O senhor nunca foi um pai carinhoso, nunca disse que me amava, sempre foi um pai ausente.
O momento em que passei a ter um pouco mais de atenção do senhor foi após meu acidente em 2006, quando eu tinha 16 anos.
O meu medo sempre foi sair de debaixo das suas asas, eu achava que não iria conseguir, mas eu saí com 19 anos.
Sou muito grato por tudo o que o senhor fez na minha vida e tenho orgulho do homem batalhador que o senhor foi...
Eu lamento as partes que os senhor não conseguiu, mas não te condeno pelos seus erros.
Mas eu consegui, pai, e via nos seus olhos o quanto o senhor tinha orgulho de mim, o seu primeiro filho homem.
Eu evolui mais e queria que o senhor me visse hoje; já se passaram dois anos sem o senhor.
Eu segui seus conselhos, não todos... A parte de ser cachaceiro e raparigueiro, eu decidi não seguir.
Às vezes, eu queria ser um pouco do senhor, aquele homem duro, que não levava desaforo, que chutava o balde, recomeçava tudo de novo e deixava para trás as pessoas que o amavam. Mas eu não consigo; a minha fidelidade a Deus não me permite.
Estou tentando até dar certo ou até isso sair do meu controle e eu não ter escolha.
É meio confuso às vezes eu querer ser igual ao senhor, pois no meu íntimo eu não quero cometer os mesmos erros que o senhor cometeu.
Estou cansado, meu velho, e sobrecarregado. Hoje eu sinto um pouco das suas preocupações e aflições, e peço perdão por não ter entendido o senhor.
No hospital, eu tive a oportunidade de dizer que o amava, mesmo meio sem graça, porque o senhor nunca me ensinou o amor de pai.
No dia da sua partida, eu estava com o senhor e saí algumas horas antes do ocorrido.
Mas eu venci, consegui ser o pai que o senhor não foi para mim; não canso de ser o mais amável possível com meus filhos, e sinto muito orgulho deles.
Se Deus tiver misericórdia, eu espero um dia vê-lo novamente e conversar de pai para filho.
Saudades...
"Painho", sempre tratei o senhor com respeito.