cover
Tocando Agora:

Entre o Beijo e a Cruz: A Metamorfose dos "Judas" e o Mercado das Moedas de Prata OPINIÃO

​A quinta-feira passou, mas ela deixou — e deixa — rastros. A Quinta-feira Santa carrega um dos simbolismos mais profundos da história da humanidade: o contraste entre a lealdade inabalável e a traição por conveniência. Segundo as tradições cristãs, foi nesta data que Judas Iscariotes selou o destino de Jesus com um beijo.

Entre o Beijo e a Cruz: A Metamorfose dos "Judas" e o Mercado das Moedas de Prata  OPINIÃO
foto gerada com uso de IA

Por Anderson Márcio 

​Milênios depois, o arquétipo do traidor e do fiel discípulo — João — ganha uma nova roupagem, especialmente quando o calendário marca um ano de eleições.


Judas e João, em tempos de Eleição 

No cenário político, onde as "trinta moedas de prata" muitas vezes aparecem na forma de acordos de gabinete e fundos partidários, assistimos a um fenômeno curioso. É a temporada em que os chamados "politiqueiros" guardam suas reais intenções no bolso e vestem, com maestria digna de grandes atores, a máscara de João.


O Personagem de João e a Máscara da Conveniência

João Evangelista é reconhecido por ter sido o único dos apóstolos a permanecer ao pé da cruz. Representa a coragem de estar presente no momento de dor e no abandono. Na vida pública, o "perfil João" seria aquele representante que mantém o diálogo com a comunidade durante todo o mandato, enfrentando as crises de frente.


Já o espírito de Judas, como bem observado pela sabedoria popular, é camaleônico. O político "Judas" não se apresenta com o rosto da traição. Ele utiliza o Beijo da Proximidade: aperta mãos e frequenta feiras, praças e eventos com um fervor quase místico, jurando lealdade eterna enquanto, nos bastidores, o foco é apenas o projeto de poder pessoal.


O Judas no Lado de Fora das Urnas: O Eleitor

Entretanto, a traição não é um privilégio apenas de quem ocupa ou pleiteia o palanque. O espírito de Iscariotes muitas vezes atravessa o portão das seções eleitorais e se manifesta na figura de muitos eleitores.

Assim como Judas colocou um preço naquilo que deveria ser sagrado, o eleitor que vende seu voto por uma vantagem imediata — seja um favor, uma quantia em dinheiro ou uma promessa de benefício pessoal — personifica a mesma traição.


Ao votar por conveniência e não por convicção, esse eleitor entrega o futuro de sua comunidade em troca de suas próprias "moedas de prata".

Nessa dinâmica, cria-se um ciclo vicioso: o político que compra o voto fingindo ser João é o mesmo que, amanhã, trairá o povo como Judas. Mas ele só o faz porque encontrou, do outro lado, alguém disposto a negociar o próprio destino.


O Desafio da Consciência

A grande questão que fica para a sociedade é: como distinguir quem está ao pé da cruz por convicção de quem está ali apenas para a foto de campanha ou para garantir um ganho pessoal?

A máscara de João é feita de palavras bonitas. Já a realidade de Judas é revelada pelo histórico e pela ética. Enquanto o "João" da política e da cidadania é forjado na constância e no compromisso com o bem comum, o "Judas" é um produto sazonal, que floresce no período das pré campanhas e desaparece assim que as urnas são lacradas.


Nesta semana que convida à reflexão, o paralelo serve como um alerta. A traição mais perigosa não é aquela que se anuncia com um grito, mas a que se disfarça de devoção — seja no candidato que engana, seja no eleitor que se vende — para conquistar uma vitória que, no fim das contas, deixará a cruz ainda mais pesada para todos.

Redator, Anderson Márcio / Biografia


Siga nosso Instagram, idéia news